Estudo internacional mostra que interação direta entre células-tronco melhora maturação hepática e simula respostas reais a medicamentos, abrindo caminho para testes mais precisos e seguros

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Uma descoberta que reforça o papel do diálogo celular na biologia humana pode transformar a forma como cientistas estudam o fígado e testam medicamentos. Pesquisa liderada por Christopher Zhe Wei Lee e Farah Tasnim, publicada nesta quinta-feira (30), na revista eLife, demonstra que o contato direto entre células derivadas de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs) é capaz de reproduzir com maior fidelidade o funcionamento do fígado humano — inclusive suas reações imunológicas a fármacos.
O trabalho, que reúne pesquisadores de instituições como a A*STAR (Agência de Ciência, Tecnologia e Pesquisa de Singapura), a Universidade Nacional de Singapura e a Nanyang Technological University, propõe um modelo inovador de co-cultura celular. Nele, macrófagos derivados de iPSCs — chamados iMacs — são cultivados diretamente com hepatócitos também derivados das mesmas células-tronco (iHeps), permitindo uma interação bidirecional até então pouco explorada.
“O que mostramos é que o contato físico entre essas células não apenas melhora a maturação dos hepatócitos, como também induz os macrófagos a adquirirem características de células de Kupffer, que são essenciais para a imunidade hepática”, afirma o pesquisador Hanry Yu, um dos autores seniores do estudo.
Um problema antigo na ciência biomédica
Modelar o fígado humano em laboratório sempre foi um desafio. Embora células hepáticas possam ser cultivadas isoladamente, esses sistemas simplificados falham em reproduzir a complexidade do órgão, especialmente no que diz respeito às interações entre diferentes tipos celulares.
As células de Kupffer — macrófagos residentes do fígado — desempenham papel central na resposta a toxinas, inflamações e medicamentos. No entanto, sua obtenção é limitada, cara e sujeita a grande variabilidade entre doadores.
Historicamente, cientistas recorreram a macrófagos derivados do sangue periférico para substituir essas células. O problema: eles não reproduzem com precisão o comportamento das células hepáticas residentes. “Isso compromete a capacidade dos modelos in vitro de prever reações reais do organismo humano”, destacam os autores.
O diferencial: contato direto
A inovação central do estudo está na constatação de que o contato direto entre iMacs e iHeps é determinante. Experimentos compararam esse modelo com outro baseado apenas em fatores solúveis — como meios condicionados por hepatócitos — e mostraram que a interação física gera sinais adicionais fundamentais para o desenvolvimento celular.
Os resultados são expressivos: hepatócitos cultivados com macrófagos apresentaram maior maturidade funcional, com aumento na expressão de genes ligados ao metabolismo de drogas, como o CYP2C9. Ao mesmo tempo, houve redução de marcadores de imaturidade celular, como a alfa-fetoproteína (AFP).
Do outro lado, os macrófagos passaram a expressar genes típicos de células de Kupffer, incluindo ID1, ID3 e RXRA, além de ativar vias metabólicas essenciais, como a LXR/RXR — crucial para identidade hepática.
Teste decisivo: resposta a medicamentos
Para avaliar a aplicabilidade do modelo, os cientistas testaram sete medicamentos conhecidos por causar — ou não — lesões hepáticas mediadas pelo sistema imune. Entre eles estavam diclofenaco, leflunomida, amodiaquina e lamotrigina.
O sistema foi capaz de reproduzir com precisão alterações na produção da citocina IL-6, um marcador inflamatório-chave. Fármacos associados à redução dessa molécula apresentaram quedas de até 65%, enquanto outros induziram aumentos de até 322 vezes.
Já nos modelos tradicionais, que utilizam macrófagos derivados do sangue, essas respostas não foram replicadas — evidenciando a superioridade do novo método.
“Isso mostra que a identidade celular correta é essencial para prever efeitos adversos de medicamentos”, afirma Florent Ginhoux, outro autor do estudo.
Impacto clínico e industrial
A relevância da descoberta é ampla. Lesões hepáticas induzidas por medicamentos — conhecidas como DILI — são uma das principais causas de retirada de fármacos do mercado e têm incidência estimada em até 19 casos por 100 mil pessoas em países ocidentais.
Com um modelo mais fiel ao organismo humano, farmacêuticas podem reduzir custos, acelerar testes e diminuir a dependência de modelos animais, que frequentemente falham em reproduzir respostas humanas.
Além disso, a tecnologia abre caminho para medicina personalizada. Como as iPSCs podem ser geradas a partir de células do próprio paciente, será possível testar como um indivíduo específico reagirá a determinado medicamento antes mesmo de administrá-lo.
Apesar dos avanços, os autores reconhecem limitações. O modelo ainda não incorpora outros tipos celulares do fígado, como células endoteliais e estreladas, o que restringe a complexidade do sistema.
Também foram analisados principalmente marcadores como a IL-6, sem aprofundar todos os mecanismos moleculares envolvidos nas respostas observadas.
Ainda assim, o estudo aponta uma direção clara: modelos multicelulares, baseados em interação direta, são o futuro da biologia experimental.
“Tecidos são mais do que a soma de suas partes. Precisamos recriar essas interações para entender verdadeiramente a fisiologia humana”, concluem os pesquisadores.
Combinando engenharia celular, imunologia e biotecnologia, o trabalho inaugura uma nova geração de modelos laboratoriais — mais próximos da realidade humana e, potencialmente, decisivos para o desenvolvimento de terapias mais seguras.
Referência
Christopher Zhe Wei Lee, Farah Tasnim, Xiaozhong Huang, Raman Sethi, Música de Yoohyun, Tatsuya Kozaki, Sébastião De Schepper,Nicolau AngHera Baixa, Você Yi Hwang, Jinmiao Chen, Hanry Yu, Florent Ginhouse, 2025. O contato direto entre macrófagos derivados de células-tronco pluripotentes induzidas (iPSC) e hepatócitos impulsiona a aquisição recíproca da identidade das células de Kupffer e a maturação dos hepatócitos eLife 14 : RP108938. https://doi.org/ 10.7554/eLife.108938.2